Pensão alimentícia: quais despesas entram no cálculo?


Fernanda estava se separando e começou a fazer uma conta que parecia simples: quanto o filho gastava por mês?
Ela anotou escola, alimentação e plano de saúde. Depois vieram outras despesas. Material escolar. Roupas. Transporte. Remédios. Atividades. Lazer.
E então surgiu uma dúvida bastante comum: afinal, o que entra no cálculo da pensão alimentícia?
A primeira coisa importante é entender que pensão não serve apenas para pagar comida. Quando falamos de pensão para filhos, estamos falando dos gastos necessários para a vida da criança ou do adolescente.
Isso inclui aquilo que faz parte da rotina, da saúde, da educação e do dia a dia. Também não existe um percentual que funcione da mesma forma para todas as famílias. A pensão precisa fazer sentido para aquela criança e para a realidade financeira dos pais.
Pensão não é só alimentação
O nome “pensão alimentícia” pode dar a impressão de que ela serve apenas para supermercado e refeições. Não é assim.
Dependendo da rotina da criança, podem existir despesas com:
alimentação;
moradia;
escola;
material escolar;
transporte;
plano de saúde;
consultas e medicamentos;
roupas e calçados;
produtos de higiene;
atividades extracurriculares;
lazer.
E essa lista não é fechada. Uma criança pode ter uma despesa que outra não tem:
Pode precisar de acompanhamento médico frequente.
Pode praticar uma atividade específica.
Pode ter gastos maiores com transporte.
Pode estudar em escola particular.
Por isso, o valor da pensão não deveria ser calculado olhando apenas para uma tabela pronta.
Pensão é sempre 30% do salário?
Não. Essa ideia é muito conhecida, mas não existe uma regra geral dizendo que toda pensão deve ser de 30% do salário.
Em alguns casos, o valor pode ficar próximo disso. Em outros, pode ser maior ou menor. Tudo depende da realidade da família.
Imagine duas crianças cujos pais tenham rendas parecidas. Uma estuda em escola pública e utiliza o SUS. A outra estuda em escola particular, tem plano de saúde e faz acompanhamento médico contínuo. Os gastos são diferentes. Por isso, aplicar exatamente o mesmo percentual para as duas famílias pode não fazer sentido.
Então como se chega ao valor da pensão?
Antes de discutir porcentagem, vale olhar para três pontos.
3.1 Quanto custa a rotina do filho?
Esse é o começo:
Quanto se gasta com escola?
Alimentação?
Moradia?
Transporte?
Saúde?
Roupas?
Atividades?
Existem despesas que aparecem todos os meses?
Há gastos que aparecem apenas em determinadas épocas do ano?
Quando essas informações são colocadas no papel, a conversa começa a ficar mais concreta.
3.2 Quanto cada pai ou mãe consegue contribuir?
O valor da pensão também precisa considerar a situação financeira dos responsáveis. Não adianta calcular que a criança possui R$ 5 mil em despesas mensais e simplesmente exigir metade de alguém que não possui condições de pagar esse valor.
Da mesma forma, quando um dos pais possui uma renda muito maior, dividir tudo exatamente pela metade pode não representar uma divisão equilibrada.
É por isso que a renda dos dois costuma ser relevante.
3.3 Os dois pais participam do sustento
O sustento dos filhos é responsabilidade de ambos. Isso não quer dizer que cada um precise pagar exatamente 50% de todas as despesas. A contribuição pode ser diferente.
Um dos pais pode pagar a pensão mensal e o outro arcar diretamente com boa parte das despesas da casa onde a criança mora. Pode haver diferença significativa de renda.
Também pode existir uma organização específica para escola, plano de saúde ou outras despesas. O importante é olhar para o conjunto.
Como saber quanto meu filho realmente gasta?
Uma forma prática é parar de tentar lembrar tudo de cabeça. Pegue os últimos meses e faça uma lista. Por exemplo:
Despesa | Valor mensal |
Escola | R$ 1.200 |
Plano de saúde | R$ 450 |
Transporte | R$ 300 |
Alimentação | R$ 800 |
Atividade extracurricular | R$ 250 |
Total parcial | R$ 3.000 |
Esse é apenas um exemplo. Ainda podem existir despesas com moradia, roupas, medicamentos, material escolar, lazer e outras necessidades.
E atenção: o custo da moradia também faz parte da vida da criança.
Aluguel, condomínio, energia, água e internet, por exemplo, podem compor a estrutura da casa onde ela vive, ainda que não sejam pagos exclusivamente “para o filho”. Por isso, fazer essa conta exige um pouco mais do que somar escola e supermercado.
Vale olhar para os últimos três meses
Uma única fatura pode enganar. Talvez naquele mês não tenha havido compra de roupa. Ou tenha surgido uma consulta médica fora do comum. Por isso, olhar um período maior costuma ajudar.
Extratos, comprovantes de mensalidade, recibos e faturas podem mostrar melhor quanto a rotina realmente custa. Também é útil separar os gastos em dois grupos: os que acontecem praticamente todos os meses e os que aparecem de vez em quando.
Isso ajuda bastante quando chega a hora de definir o que ficará dentro do valor mensal e o que será tratado separadamente.
Escola e plano de saúde ficam dentro da pensão?
Podem ficar. Mas também podem ser pagos separadamente. Não existe uma única forma.
Em algumas famílias, a pensão mensal já considera escola, plano de saúde e outras despesas. Em outras, fica combinado que um dos pais pagará diretamente a escola. O outro pode manter o plano de saúde.
E ainda pode existir um valor mensal para as demais despesas. O mais importante é evitar acordos vagos. Por exemplo: “Despesas extras serão divididas.”
Quais despesas extras?
Material escolar?
Dentista?
Excursão?
Curso de inglês?
Uniforme?
Medicamentos?
Se isso não estiver minimamente claro, a chance de discussão depois aumenta bastante.
E material escolar, uniforme e remédios?
Essas despesas não acontecem necessariamente todos os meses, mas continuam existindo. Material escolar costuma pesar mais no começo do ano.
Uniforme pode precisar ser comprado algumas vezes. Medicamentos podem surgir sem aviso. Uma consulta particular também.
Por isso, essas despesas podem ser consideradas na organização da pensão mesmo que não apareçam mensalmente.
O que muda é a forma. Algumas famílias preferem estimar esses gastos dentro do valor mensal. Outras combinam uma divisão quando eles surgirem. As duas formas podem funcionar, desde que as regras sejam claras.
E atividades como inglês, futebol ou natação?
Também depende da realidade da criança e da família. Uma atividade que já faz parte da rotina há anos é diferente de uma atividade nova, contratada por apenas um dos pais sem qualquer conversa.
O mesmo vale para cursos, viagens escolares, esportes ou outras atividades. Não basta colocar tudo automaticamente na categoria “extra”.
Vale entender se aquela despesa já fazia parte da vida do filho, se é compatível com a realidade econômica dos pais e como foi combinada.
Guarda compartilhada acaba com a pensão?
Não. Esse é outro mito comum.
Guarda compartilhada significa que os dois pais participam das decisões importantes sobre a vida dos filhos. Não significa que cada um passará a pagar exatamente metade de tudo.
E também não significa que a pensão deixa automaticamente de existir. Imagine que a criança more a maior parte do tempo em uma casa e um dos pais tenha renda muito maior que o outro.
Ainda pode existir necessidade de contribuição mensal. Guarda e pensão são assuntos relacionados à vida dos filhos, mas tratam de coisas diferentes.
"Meu filho passa metade do tempo comigo. Ainda preciso pagar?”
Também não dá para responder apenas contando dias. O número de noites em cada casa é uma informação importante, mas não mostra sozinho como as despesas estão distribuídas:
Quem paga a escola?
Quem mantém o plano de saúde?
Quem arca com a maior parte das roupas?
Quem paga transporte?
Qual é a renda de cada um?
Quem suporta os gastos fixos da residência principal da criança?
É o conjunto dessas informações que importa.
A pensão pode mudar com o tempo?
Pode. Uma criança de 4 anos não tem exatamente os mesmos gastos de um adolescente de 15. A escola muda.
As atividades mudam.
Podem surgir tratamentos de saúde. E a renda dos pais também pode aumentar ou diminuir.
Por isso, um valor definido hoje não precisa necessariamente permanecer igual para sempre. Quando há uma mudança importante, pode ser possível pedir a revisão da pensão.
Mas há um cuidado fundamental: quem já possui uma pensão fixada não deve simplesmente decidir sozinho que vai pagar menos ou deixar de pagar.
Se a situação mudou de forma relevante, o caminho é pedir a alteração pela forma adequada.
E se quem paga perder o emprego?
Perder o emprego ou sofrer uma queda importante de renda pode justificar uma nova análise do valor. Mas isso não faz a pensão desaparecer automaticamente.
Enquanto não houver alteração, a obrigação já existente continua produzindo efeitos. Por isso, esperar vários meses, acumular dívida e somente depois tentar resolver costuma deixar a situação mais difícil.
Se a mudança financeira for relevante, vale avaliar a questão o quanto antes.
Perguntas frequentes
Pensão alimentícia é sempre 30% do salário?
Não. Não existe um percentual único para todas as famílias.
Pensão serve apenas para comprar comida?
Não. Ela também está ligada à moradia, saúde, educação, transporte, roupas, higiene, lazer e outras necessidades dos filhos.
Escola entra na pensão?
Pode entrar no valor mensal ou ser paga separadamente. Depende de como a contribuição foi definida.
Plano de saúde pode ser pago por fora?
Pode. Em algumas situações, um dos pais mantém diretamente o plano e essa contribuição é considerada na organização das despesas.
Material escolar precisa ser dividido?
Depende do que foi definido entre os pais ou pelo juiz. O ideal é deixar claro como despesas que não acontecem todos os meses serão tratadas.
Guarda compartilhada elimina a pensão?
Não. Mesmo com guarda compartilhada pode existir pensão alimentícia.
Posso pagar menos se minha renda diminuir?
Se já existe uma pensão fixada, não é recomendável reduzir o valor por conta própria. Uma mudança importante na renda pode justificar um pedido de revisão.
Antes de discutir percentual, vale descobrir quanto a rotina realmente custa
É muito comum começar a conversa sobre pensão perguntando: “Quanto por cento do salário?” Talvez seja melhor começar por outra pergunta: “Quanto custa, de verdade, a vida dessa criança?”
Escola.
Comida.
Casa.
Saúde.
Transporte.
Roupa.
Atividades.
Despesas que aparecem de vez em quando.
Depois disso, é possível olhar para a renda de cada responsável e pensar em uma forma de contribuição que faça sentido para aquela família.
Não existe uma tabela capaz de substituir essa análise. E quanto mais clara estiver a divisão das despesas, menor a chance de o acordo deixar perguntas importantes para depois.
A Rodrigues & Felix Sociedade de Advogados atua em questões relacionadas à pensão alimentícia, incluindo definição inicial do valor, revisão da pensão e organização das despesas dos filhos.
Escrito por:


Comentários